1/3/11

Espelho acordado

Ao acordar assustado, num pulo rápido e simples, agarrou-se ao lençol, primeira coisa que seus braços alcançaram, e puxou-o para cima de si, numa vã tentativa de proteção. O sonho, pesadelo, fora tão real. Claro que assim como qualquer um que todos tem, são sempre tão reais; e os seus serão sempre mais reais que os dos outros. De volta ao pesadelo, ao se ver morrendo, lembrou-se de ter lido algo alguma vez de algum psicólogo que falava de interpretações de sonhos. Pensou e nada interpretou.

Respirou fundo e levantou da cama, andou a passo lento até a cozinha buscando um copo d’água. Ao tentar alcançar o copo, uma dor lacerante veio ao pulso, rápida e ainda mais veloz ao sumir. Estranhou e volto ao copo. Após longas goladas, sentiu-se saciado a ponto de retomar a completamente normal sonolência que o horário, algo entre três e quatro da manhã, permitia.

O dia anterior foi longo, entre brigas, cervejas, discussões, vodkas e talvez mais brigas, após o momento que já de nada recordava. Bebeu para esquecer e, quando bêbado, quando o motivo para isso chegara, sentiu-se com aquela coragem besta que somente os bêbados tem. E claro que seu discurso, cambaleante e redundante, de nada serviu para outro alterado.

Também pudera, quando é que um bêbado terá a moral de dizer à outro sobre entorpecentes? Claro que não exagerava, só às vezes, quando a situação, ou a depressão, concedia-lhe chance de se perder. Não que fosse comum, há algum tempo que não lembrava de um episódio desses. (E claro que isso não quer dizer que podia se lembrar de algo de algum episódio desses. Paradoxos da vida.)

Contradições à parte, pensou no motivo, pela milésima vez, da bebida. Quem poderá dizer por qual motivo o amigo não o escutara? Será que não vê que todos o querem bem e, agora que começa a exagerar nas ingestões daquelas coisas. Claro que algo aqui, ou ali, faz bem. Relaxa, redime. Mas sempre, começa a fazer mal.

“Se fosse controlado, como eu, poderia ter liberdade para fazer quando quisesse. Preciso pará-lo”, pensou em voz alta, quase dando veracidade à sua própria fala somente por tê-la deixado escapar da mente pela boca. Ele sim era controlado. Perdia o controle somente quando queria, deixava-se extravasar. Mas sempre tinha noção.

Era um modelo de bêbado, e um bêbado modelo. Fazia todas as coisas legais de quando bêbado, mas nunca se deixava passar vexame. Era contra essas coisas, naturalmente. Às vezes não lembrava de algo aqui ou acolá, mas nada comprometedor, comprovara.

Agora a cama, que já parava de rodar, parecia mais confortável. Quase podia sentir alguma sonolência, a despeito da cabeça num vai e vem infernal. Quiçá pensaria no amigo em outra hora, quando lembrasse de porque seu pulso incomodava.

Agora só precisava dormir.

criado por rafakopko    00:30:52 — Arquivado em: Sem categoria

6/11/10

Ideal

E essa vontade que me domina?

E a virtude de estar sem e só pensar?

Idealizadamente, espero logo o momento do encontro

Idealmente o mais próximo que se possa ser

Ideal, mente a mente que será, agora

Ideal, minha perceira gêmea, ideal

criado por rafakopko    16:16:12 — Arquivado em: Sem categoria

14/9/10

Como?

Como aviso que te quero?

Mostro-te que não é mais brincadeira

que minha alma, por mais que pequena,

cansou-se daquela toada

Como digo que por mais que um vão momento

é o tempo que quero de ti

que preciso ter quem pensar

quando de mim mesmo soltar

Como sei que está pensando em mim

quando mal dizer o que penso consigo

numa confusão tonteante de idéias

que se perdem e misturam sem as ver

Como te demonstro meu desejo

Que em mim te quero mais que beijo

E assim vou e me perco em ilusões

de minha própria fabricação

Como falo se no pouco tempo que te vejo

o tempo me tira a coragem de outrora

nas imaginações que em mim surgiam

de te ver naquela esquina sem demora

E então, me diz, e só isso,

como digo assim, bem simples

pra você ter certeza em mim

Como digo que te quero?

criado por rafakopko    00:21:55 — Arquivado em: Sem categoria

20/3/10

Ar seu

Estava tudo mudado

já esperado, mas não certo

De algo antes não tão bom

para a diferença

As mãos soltaram-se

para encontrar outras coisas

As bocas encontraram-se

para depois mudar o rumo

O peito subia e descia

com o ar que era seu

O tempo era curto

Comprimido no vão quarto

Mas soltar era dificil

tal enlaço do corpo

E foi, indo, longe

no tempo e espaço

no corpo e na mente

até o mais

criado por rafakopko    17:29:37 — Arquivado em: Sem categoria

11/3/10

Tudo, Nada

Aqueles lábios tocaram lentamente

estranhamente

Como se o esperado fosse alterado

diferente

Não pior, mas também não melhor

timidamente

Línguas roçaram, como se fosse um erro

as mãos juntaram-se, sem medo

A cumplicidade era encoberta

estranhamente por uma amizade

O mundo girava somente em nossa volta

em nosso eixo, torto, mas feito

Aquele abraço atordoante

não era pra terminar nunca

A respiração na nuca

Aquela inspiração tão funda

Que te atormenta e acalma

Que tensiona e relaxa

Que aperta e solta

Que é tudo, nada

criado por rafakopko    14:32:26 — Arquivado em: Sem categoria

21/2/10

Até tu, Brutus?

A lamina veio duplamente feita e duplamente afiada. Pouco de um lado. Excalibur, se não mais, do mais importante, longo, e letal. Porém cega. Rápida o bastante para decepar de um extremo ao outro num piscar de olhos. Lenta o bastante para cada gota escorrer, lentamente, e doer, sorrateiramente.

Que foda-se o fogo sem doer, a queimadura fez-se presente. Que Camões não tenha sentido! São as horas que Vinicius diria mal de sua crônica, e por mais que eu dissesse que ele estava certo, que por mais da vida, eu concordo!, era difícil!

Meu, erro! Meu! Não, a culpa tinha sido minha. Desprezei a vida e sentimentos de alguns, subi num pedestal. Mas quando precisei de mãos para aparar-me na queda, vi espinhos e lanças postas a me esperar.

Olhei com fúria meus inimigos, se é que os tenho agora, são todos, não pensei nas revoltas. Que seja de escravos, esquerdistas ou uma mísera de 32. Larguei a retaguarda vã.

Pequei, meu deus, mas se és tão misericordioso quantos dizem, plagio já feio, porque me abandonaste? Sabias que não era deus (e lá se vai outro plágio). Sabe que sou fraco.

Sabe que sou rancoroso. Sabe que sou vingativo. Sabe que sou ego, e ista, e egoísta. E triste. Gauche!

E travei ante as coisas que, por mais que visse, nunca esperei. Olhei minha muralha, minha fortaleza, meu apoio, minha escora, desmoronar. Da mesa, uma se foi, deixando-a bamba. Tríplice, de um lado.

Olhei, no fundo, e que me queimem mais, plágio pela ultima vez.

Disse.

“Até tu, Brutus?”

criado por rafakopko    05:06:19 — Arquivado em: Sem categoria

16/2/10

Mente. Mentir.

Estranho apareceu como o sal tocando a língua quente. Um toque e fez a pele diferente do que sempre pensara ser. Ou sentir. Os laços que entre os dedos se firmaram passaram tal energia como se o conhecimento fosse prévio e de longa data.

As bocas despejaram, ruidosas, sobre tudo que viam. O lado encostava. A frente. O olhar encantava absolutamente após cada flerte que vinha fatal.

A nostalgia de outrora chegava a ferir, mas não parecia importar tanto ao alento de quem mais devia.

Mas ao fim as línguas não se tocaram como haviam conversado em outro tempo. Ficaram a poucos centímetros. Mas o recuo foi seco, incessante, avassalador.

Não derrubou, mas arranhou a carapaça amargurada que tentava abrir-se.

Não recusou. Parou, planificou seus dias. Contou, colheu as informações.

Aproximou-se. Atirou-se. De corpo, alma e mente. De corpo. Alma. E mente. E mentiu a si mesmo. E mentiu que sabia que ia dar. E mente. A mente. Mentiu.

criado por rafakopko    20:22:30 — Arquivado em: Sem categoria

9/2/10

Desejo

E o que eu quero é te dar o mundo.

O meu mundo, inteiro.

Tirar quem quer que esteja.

Dar-te o que desejas.

criado por rafakopko    23:21:09 — Arquivado em: Sem categoria

Tímido…

Começou tímido

sem ardor

e subiu

cresceu…

cresceu…

cresceu…

diminuiu…

não mais foi

eram muitas dúvidas

o que acontecerá

no dia seguinte?

criado por rafakopko    11:38:17 — Arquivado em: Sem categoria

Sorrateiramente

Sorrateira… quieta

na surdina da noite

silêncio

De mansinho vem

abre aquela porta

entra em mim

No meio do peito

bem lá no meio

e se fixa

Agora está lá

instalada

clandestina

e bem vinda

criado por rafakopko    11:04:08 — Arquivado em: Sem categoria
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